Vou te falar uma coisa que ninguém gosta de admitir no tatame: quase todo mundo que treina pesado já pegou micose pelo menos uma vez. Faixa branca, faixa preta, campeão, amador. O fungo não escolhe.
A diferença entre quem perde duas semanas de treino e quem nunca chega nesse ponto não é sorte, nem genética, nem pele de ferro. É rotina. Uns cuidam, outros acham que cuidar é coisa de quem não é casca grossa. Spoiler: os que acham isso são justamente os que mais rodam fora do tatame.
Esse guia é o que a gente queria ter recebido quando começou a treinar. Sem enrolação, sem termo médico complicado, sem te empurrar nada. Só o que funciona pra quem sua de verdade, todo dia.
Esquece o nome. No fim, é fungo.
"Micose" assusta, mas é mais simples do que parece. É uma infecção causada por fungo, o tal do Tinea corporis. Não tem verme nenhum, apesar do nome em inglês ser "ringworm" e meio mundo achar que tem bicho ali dentro. Não tem.
É o mesmo tipo de fungo do pé de atleta, só que pode aparecer em qualquer lugar onde a pele fica quente, suada e abafada por muito tempo. Pescoço, costas, antebraço, virilha. Ou seja, o tatame inteiro é um campo de jogo perfeito pra esse cara.
O fungo adora três coisas.
Calor, umidade e contato. E o treino entrega os três de bandeja. Não dá pra fugir do contato, é a natureza do esporte. Mas dá pra cortar os caminhos que o fungo usa pra chegar em você.
- Pele com pele. Clinch, guarda fechada, raspagem. Se o parça do lado tem e não sabe, você leva no próximo round.
- Tatame compartilhado. Suor de dezenas de pessoas no mesmo lugar quente. O fungo fica ali esperando.
- Kimono e rashguard suados. Tecido molhado guardado na mochila é estufa de fungo. Aquele cheiro já é o aviso.
- Vestiário e chão molhado. Andar descalço no banheiro da academia é quase pedir pra pegar.
Como reconhecer antes de espalhar.
Micose começa quietinha. Uma manchinha vermelha, às vezes uma coceira que você jura que é da barba do parça raspando no clinch. Dá uns dias e a borda fica mais marcada, meio escamosa, formando aquele anel com o meio mais claro. Quando chega nesse ponto, já passou da hora de agir.
A regra é simples: viu mancha estranha que não some, para o jogo e cuida. Não sobe no tatame na dúvida. Você não quer ser o cara que espalhou pro time inteiro.

O protocolo de quem treina todo dia.
Nada aqui é segredo. É só básico feito direito, todo dia, sem preguiça. A maioria das micoses que a gente vê no tatame seria evitada só com os três primeiros itens dessa lista.
1. Banho na primeira hora
Não é "quando chegar em casa daqui a pouco". O fungo se instala rápido enquanto a pele tá quente e suada. Quanto antes você tira o suor, menos chance ele tem. Se não der pra tomar banho na hora, lenço umedecido na mochila quebra um galho até chegar no chuveiro.
2. Kimono e rashguard lavados todo treino
Aquela história de quimono fedido ser sinal de casca grossa já morreu. Quimono sujo é ninho de fungo, ponto. Tenha pelo menos dois ou três pra revezar e lava depois de cada treino. Mesmo que "ainda não tá fedendo". Principalmente quando ainda não tá.
3. Seca tudo direito
Fungo morre no seco e prospera no molhado. Depois do banho, seca de verdade: axila, virilha, atrás do joelho, entre os dedos do pé. Esses cantos ficam úmidos mais tempo do que você imagina.
4. Unha curta e limpa
Unha grande arranha o parça e arranha você. E todo arranhão é porta de entrada pra fungo e bactéria. Corta antes de subir no tatame, e de quebra você para de machucar os outros na pegada.
5. Chinelo fora do tatame
Vestiário, banheiro, chuveiro da academia. Nunca descalço. Um chinelo baratinho na mochila resolve.
6. Toalha é sua
Não empresta, não pega emprestado. Mesma regra pra rashguard, faixa e qualquer coisa que encosta na pele.
7. Corte coberto antes do treino
Tem um ralado, um corte, uma bolha estourada? Cobre com curativo à prova d'água antes de subir. Pele aberta é o caminho mais fácil pro bicho entrar.
8. Lesão ativa, fora do tatame
Esse aqui não é só por você. É respeito pelo time. Treinar com micose ativa espalha pro grupo inteiro em uma semana. Trata, espera sarar, volta limpo. O treino te espera.
Onde um bom sabonete entra nisso.
Numa parte da rotina. Não no lugar dela. Não existe sabonete que te deixa imune a micose, e quem te disser isso tá te vendendo conversa. O que um bom sabonete faz é ser uma ferramenta a mais: limpar de verdade depois do treino, tirar o suor e o pó do tatame, sem detonar a sua pele no processo.
E aí mora um detalhe que pouca gente fala. Aqueles sabonetes antibacterianos super agressivos ressecam a pele e podem até atrapalhar, porque pele rachada e seca é mais uma porta de entrada. O ideal é limpar bem mantendo a pele inteira e macia.

Foi exatamente pra esse banho que a gente fez o Brabo Power
Três amigos que treinam jiu-jitsu e MMA em São Paulo, cansados de ver gente boa rodando fora do tatame. A barra leva melaleuca e neem, que a literatura científica reconhece por propriedades antifúngicas e antibacterianas, carvão ativado pra esfoliar o suor seco e o pó do tatame, e karité pra não ressecar mesmo lavando várias vezes ao dia.
Brabo Power é um sabonete cosmético de higiene pessoal. Faz parte da rotina, não substitui ela nem dispensa cuidado médico.
Ver o saboneteQuando rotina não resolve, vai no médico.
Tem hora que sabonete e disciplina não dão conta, e tudo bem. Procura um dermatologista se:
- A mancha cresce mesmo você cuidando direito.
- Espalha pra vários lugares do corpo.
- Dói. Micose geralmente coça, não dói. Dor pode ser bactéria tipo estafilococo, que é mais séria.
- Você compete e precisa de liberação médica pra entrar.
Dica de quem já passou por isso: fala pro médico que você treina luta de contato. Se ele não souber o que é jiu-jitsu, fala que é tipo luta olímpica. Ele vai saber exatamente o que procurar.
Micose é chato. Mas é evitável.
Não é sobre ser limpinho. É sobre não rodar duas semanas fora do tatame por causa de algo que um banho rápido e um quimono lavado resolveriam. Cuida da pele com a mesma seriedade que você cuida do jogo.
Luta Limpo